Gestação

ABORTO ESPONTÂNEO! E AGORA?

Que dor, que dor absurda. Não sei ao certo de onde ela vem, se do útero ou do coração, só sei que dói. Dói uma dor de perda, de interrupção do esperado, mas também do inesperado – como seria se tivesse ido até o fim? – Dói uma dor de culpa. Sim, a culpa por ter tido pensamentos que não deveria e, por isso, veio o castigo. A culpa pelo sentimento de alívio, afinal, a vida continuará sendo a mesma – Mas que espécie de mulher eu sou por pensar isso? Mãe perfeita é que não é! – Mas é necessário conseguir. Meu marido, minha família, meus amigos, todo mundo espera por isso… os decepcionei, tenho algo de errado, não consegui segurar o bebê.

E quando a perda é de alguém que ainda não foi conhecido, mas já muito esperado?

Pois é… isso acontece!

O aborto espontâneo (também conhecido como perda gestacional) está aí para colocar essa possibilidade na vida de muitas mulheres gestantes. Infelizmente, esse é um acontecimento relativamente comum e que representa um desgaste emocional bastante intenso.

As causas de um aborto espontâneo podem estar associadas a vários fatores como: causas anatômicas, endócrinas, genéticas, infecciosas, imunológicas e psicológicas.

Além disso, o risco de perda gestacional aumenta gradativamente quando se repete, ou seja, quanto mais abortos a mulher tiver, maior a chance de ter o próximo.

Quando o aborto se repete, sucessivamente, por 3 ou mais vezes e por 2 ou mais vezes em mulheres a partir de 35 anos, é chamado de aborto recorrente.

Porém, para que seja considerado aborto, é necessário que ocorra antes de 20 semanas de gestação, com o feto pesando 500g ou menos.

Aborto Espontâneo1

Cada gestação é única e marca um período de transição e mudanças. Em algumas delas, o cotidiano é alterado, principalmente quando há a necessidade de cuidados, remédios, repousos e, algumas vezes, cirurgias e internações hospitalares.

Quando ocorre a interrupção da gravidez, causa uma quebra das expectativas boas e ruins sobre a gestação e a maternidade, dando início a um processo de luto tanto pelo filho real que estava na barriga, quanto pelo filho imaginado (como seria fisicamente e sua personalidade – explicarei melhor em um próximo artigo), o que provoca um período de crise emocional de difícil elaboração na mulher.

Na descoberta e durante a gestação, é comum que es mulheres tenham sentimentos e pensamentos diversos: será que sou capaz de gerar um bebê saudável? Meu corpo é bom o suficiente para isso? Será que não sou fraca?

Desta forma, o aborto pode surgir como confirmação desses pensamentos e deixá-los ainda mais intensos caso ocorra uma nova gestação, aumentando os medos, além de criar outros como o medo da perda da própria vida. O abortamento em si causa uma interrupção inesperada e imprevisível que traz consigo a relação com a morte e todo o sentimento que dela surge.

Além dos medos, as expectativas da mulher e das pessoas ao redor acerca de uma nova gestação e como ela terminará também podem aumentar. Essas expectativas podem deixá-la mais ansiosa em exercer seu papel de mãe para aquela família e sociedade, gerando um ‘peso’ grande a ser carregado.

Com tudo isso, a mulher passa a sentir-se culpada e vulnerável aos acontecimentos futuros, pois muitos olham o aborto como um fracasso da mulher. E conseguir uma nova gestação pode passar a ter um objetivo muito maior do que o desejo de ser mãe, passa a ser a prova de sua capacidade.

Essa tentativa de provar sua competência, muitas vezes está relacionada, também, ao medo de perder o companheiro que solicita uma mulher ‘inteira’ e ‘capaz’. Essa vontade de provar sua capacidade pode levar a mulher a criar um vínculo menor com a(s) gestação(ções) futura(s), pois não se trata mais apenas do desejo da maternidade, além de não saber se aquele bebê irá ‘vingar’.

Mesmo assim, o luto por cada gestação perdida, quando acontece mais do que uma, é distinto, pois cada perda se deu de uma maneira, em um momento diferente e com uma diferente maturidade emocional da mãe.

E o fato de algumas mães já possuírem filhos vivos, não minimiza a dor da perda gestacional, nem os possíveis pensamentos negativos.

Dito isto, ressalto aqui que a taxa de depressão em mulheres que tiveram aborto é alta, principalmente se ocorreu na primeira gestação. A ocorrência ou não e a intensidade da depressão pelo abortamento depende de uma série de fatores pessoais e eventos que estejam associados como: idade, ocupação, renda pessoal e familiar, religião, expectativas com a gestação, entre outros. Por isso, a vivência do luto pela perda gestacional nunca é igual.

Alguns sentimentos que o aborto pode despertar são: raiva, tristeza, frustração, culpa, sensação de vulnerabilidade e o citado acima, a depressão (que é a soma de alguns desses sentimentos de forma mais intensa).

Com isso, é importante colocar aqui que é necessário se fazer, sempre, um acompanhamento psicoterápico. Pois, além de poder lidar melhor com o luto pela perda e com a possível depressão, muitos abortamentos (sem causa física aparente) podem ser ocasionados por motivos psicológicos e só podem ser entendidos e possivelmente solucionados com o acompanhamento psicológico adequado.

Aborto Espontâneo 2

Alguns pontos extras:

  • Há, na sociedade, falta de espaço para que a mulher, vítima de abortamento, possa se expressar e falar de seus sentimentos de perda.
    • As pessoas costumam desconsiderar esse luto com frases do tipo: “foi melhor assim”; “logo você engravida de novo”; “antes agora do que depois de nascer”.
  • A não vivência adequada do luto pode comprometer o processamento psíquico dele. O que pode fazer com que esse luto seja adiado por longos anos.
Post Anterior Próximo Post

Você Pode Gostar Também

2 Comentários

  • Responder Aline 29/07/2017 at 14:23

    (…)Com tudo isso, a mulher passa a sentir-se culpada e vulnerável aos acontecimentos futuros, pois muitos olham o aborto como um fracasso da mulher. E conseguir uma nova gestação pode passar a ter um objetivo muito maior do que o desejo de ser mãe, passa a ser a prova de sua capacidade.(…) (NUNCA EXPRESSARAM TÃO BEM O QUE EU SINTO EM RELAÇÃO A ESTE ESTIGMA QUE CARREGO EM MINHA VIDA, O ESTIGMA DE TER PERDIDO CINCO BEBÊS E DE SEMPRE TER DE LIDAR COM OLHARES E FRASES DE PENA A MIM DIRECIONADOS SOBRE ESTE ASSUNTO COMO SE MINHA VIDA TODA SE RESUMISSE ÀS CRIANÇAS QUE PERDI AINDA NO VENTRE. É TORTURANTE TER DE LIDAR COM ESSA ATMOSFERA DE EXPECTATIVA POR PARTE DE PESSOAS ALHEIAS E INSENSÍVEIS QUE TRATAM ESTE ASSUNTO COMO UMA ESPÉCIE DE JOGO EM QUE UMA HORA OU OUTRA EU TIRAREI A “SORTE GRANDE” E GANHAREI O PRÊMIO, NO CASO, A CRIANÇA. EU JÁ NÃO DESEJO MAIS SER MÃE, NEM PENSO NISTO. NA VERDADE NUNCA FOI UMA COISA QUE EU DESEJASSE MUITO, GRAÇAS A DEUS, SE NÃO JÁ TERIA COMETIDO SUICÍDIO A MUITO TEMPO. )

    • Responder Jéssica Carmassi 31/07/2017 at 14:07

      Olá Aline! Fico feliz em saber que o texto conseguiu descrever o seu sentimento e você pôde sentir-se compreendida, mesmo que por um momento.
      Você tem razão, o fato de ter perdido esses bebês é uma parte da sua vida e não ela como um todo. É difícil, compreender isso, principalmente para quem está de fora. Talvez seja importante esclarecer essa diferença às pessoas próximas à você.
      Realmente, a maneira como a sociedade lida com a maternidade é com bastante pressão em cima da mulher, como se só existisse a possibilidade de ser mãe e não o oposto, que também é válido… uma mulher não deixa de ser mulher se não tornar-se mãe.
      Sugiro que leia também o texto Vida de Tentante aqui do blog. Nele, eu e a psicóloga Silvana falamos ainda mais sobre essa pressão da sociedade, pode lhe trazer reflexões ainda maiores, espero que ajude.
      Entendo sua dor e sua escolha, mas caso deseje conversar mais sobre isso, me mande um email! contato@gravidamente.com.br
      Abraço,
      Jéssica Carmassi

    Deixe uma Resposta